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Fundação de Roma — história e lenda 

Eneias, príncipe Troiano, filho de Vénus (uma deusa) e de Anquises (um mortal), sobrevive à destruição de Tróia pelos Gregos e é encarregado pelos deuses de salvaguardar a civilização Troiana, fundando bem longe dali uma nova cidade.

Assim, na companhia do velho pai Anquises, o filho Iulo, a esposa Creúsa, que perde na escuridão, e os deuses do lar e da família, lança-se ao mar, em fuga, e, depois de vaguear errante durante longo tempo, no meio de muitas aventuras, entre as quais a chegada a Cartago, onde é acolhido e amado pela rainha Dido, chega finalmente a Itália e fixa-se no Lácio.

Aí é recebido pelo rei Latino, vindo a desposar sua filha Lavínia, e funda a cidade de Lavínio (Lauinium), assim chamada em honra da nova esposa, que arrancara às mãos de um rival, Turno, rei dos Rútulos, com quem teve de lutar.

Iulo, filho de Eneias, fundará mais tarde Alba Longa, cidade que dará origem a Roma, pois será uma descendente de Iulo, a vestal Reia Sílvia, que, grávida de Marte, dará à luz dois gémeos, Rómulo e Remo, um dos quais será o primeiro rei de Roma.

Ainda segundo a lenda, Rómulo funda Roma em 753 a.C., no monte Palatino, a cerca de 20 km. de Alba, cidade que o viu nascer.

Trezentos anos após a fundação de Alba, Amúlio, que usurpara o trono a seu irmão Númitor e não permitia que dele existissem descendentes, encerrou no templo de Vesta Reia Sílvia, não por esta poder herdar o trono de Númitor, seu pai, mas para que dela não pudessem provir filhos que reclamassem o trono de seu avô.

Grávida de Marte, Reia dá à luz os gémeos Rómulo e Remo, que mais uma vez não escapam à ira de Amúlio. Postos num cesto, foram por ele mandados lançar ao Tibre para que se afogassem. O escravo a quem coubera tal tarefa, porque o rio então transbordava, depositou-os sobre a margem e não no próprio leito do rio. Quando as águas baixaram e a corrente se tornou normal, as crianças ficaram em seco e, gemendo de fome e de frio, foram socorridas por uma loba que as amamentou, até que um pastor, Fáustulo  de seu nome, as encontrou e as levou para sua casa, onde, com a esposa Larência, as acarinhou e as criou.

Chegados à adolescência e informados da sua história, matam Amúlio, repõem no trono Númitor, e propõem-se fundar uma nova cidade, nas colinas junto ao Tibre, não muito longe do mar. Reúnem alguns companheiros e ali se estabelecem, fundando a cidade segundo os ritos de então, dos quais fazia parte, para além da invocação aos deuses e da consulta dos arúspices, que deram a vantagem a Rómulo sobre o seu irmão, o traçado de um sulco delimitando o local, sulco que ninguém podia transpor senão em pontos por ele determinados.

Remo, incauto, infringe as regras, sendo morto pelo próprio irmão, que se torna o único fundador da cidade, durante muito tempo denominada simplesmente a Urbe.

Esta é a história contada pelos escritores romanos, dos quais se destaca Tito Lívio, no século I a.C., e é a história que vigora durante séculos, até que, por finais do século XVI d.C., os investigadores se começam a interessar pela distinção entre a lenda e a verdade histórica, baseados sobretudo nas incongruências e nos anacronismos existentes nos relatos anteriores.

Contudo, só no século XVIII as investigações assumem carácter verdadeiramente científico e é durante o século XIX e sobretudo no século XX que, após descobertas arqueológicas sucessivas, muitas das quais levam à negação total da lenda, se chega à conclusão de que história e lenda não estão assim tão distanciadas, pois em meados do século VIII terá existido uma cidade murada no Palatino, no preciso local apontado como o escolhido por Rómulo.

Se a lenda se desenvolve a partir da história e dela fazem parte ingredientes comuns à fundação de muitas outras cidades da Antiguidade, seguindo uma tradição que já vinha de longe, a que se juntam elementos que a transmissão oral vai acrescentando, ou se a história procura agora na lenda o que a investigação científica permite apurar como verdadeiro, o facto é que Roma continua a ter como reconhecidas as suas origens em tempos recuados, num aglomerado populacional reduzido, humilde mas aguerrido, que à volta de uma ou de várias colinas, junto às margens do Tibre, não muito longe do mar, num lugar estratégico para se tornar uma cidade grande e próspera, se foi alargando progressivamente, até vir a tornar-se num imenso e duradoiro império, que foi berço da nossa civilização.

in  Isaltina Martins e Maria Teresa Freire, Noua Itinera, 1, Ed.ASA, 2004

 

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publicado às 12:41


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